Elementos que compõem o livro e o documento

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Elementos que compõem o livro e o documento

(OTLET, 2008, p. 64)

Um livro é a reunião de folhas de papel impresso. Nelas, dispõe-se a impressão, dividida por páginas, reto e verso, de modo que as páginas se sucedam em ordem, depois da dobragem, pois as folhas serão dobradas algumas vezes sobre si mesmas, segundo o formato exterior previsto para o livro. Depois elas são reunidas, seguindo uma numeração, independente da paginação. Este número de folha é chamado de assinatura. Depois que as folhas são postas em ordem, acrescenta-se, no início, a folha de rosto, que geralmente repete a capa (o título da falsa folha de rosto, que a antecede, nem sempre é explícito), as folhas preliminares com prefácio, preâmbulo e advertência. Coloca-se o sumário no início ou no final do volume.

Acrescentam-se os anexos, mapas, estampas, quadros, etc. Costuram-se as folhas, que são depois brochadas e recebem a capa de cartolina, ou são encadernadas. Eis o livro.

O livro compõe-se de vários elementos: elementos intelectuais (ideias, noções e fatos expressos), elementos materiais (substância ou suporte disposto em folhas, de certo formato, dobradas em páginas) e elementos gráficos (signos inscritos no suporte). Os elementos gráficos são o texto e as ilustrações. O texto se compõe de escrita alfabética e notações convencionais. As ilustrações incluem imagens, desenhadas (imagens feitas à mão), ou fotografadas a partir do real (imagens mecânicas). As ilustrações são colocadas no texto ou publicadas como lâminas impressas somente no reto, dispostas junto ao texto ou na forma de anexos, ou reunidas em álbum ou atlas separados do texto, mas fazendo parte integrante da obra.

O livro pode ser considerado:

1º Como conteúdo: as ideias que se referem a um certo assunto ou matéria,

consideradas num certo lugar e num certo tempo.

2º Como um continente: uma certa forma de livro e uma certa língua na qual as ideias são expressas.

Essas formas, por sua vez, são de dois tipos: a) a forma da exposição objetiva, didática, científica, forma suscetível de progresso constante e que são como os moldes preparados para receber o pensamento; b) as formas literárias propriamente ditas, que correspondem aos gêneros e espécies estudados pela retórica. Esses elementos servem de base para a classificação.

Os elementos materiais do livro-documento são constituídos pelo seu suporte, cujas substâncias podem ser variadas, com formas e dimensões diversas, e o próprio corpo separado do seu invólucro ou capa.

A principal substância que comporta os signos e que constitui seu suporte é o papel. ‘A era do papel’ é mesmo um dos epítetos que melhor caracterizam nossa época, mas o papel é apenas uma das espécies de matéria capazes de receber a escrita. Escreveu-se sobre pedra, metal, cerâmica, papiro, pergaminho e, finalmente, papel.

O papel é um meio de criar e multiplicar a superfície. O papel suscita várias questões: a qualidade, a adaptação de diferentes espécies de papel a diferentes usos aos quais se destina, a normalização proposta para seus formatos, a normalização sugerida por alguns fabricantes, os preços em função das possibilidades do consumo, e as aplicações imprevisíveis derivadas do papel e do papelão. Em todos os países, o papel e o papelão se tornaram elementos essenciais da organização atual.

A respeito das formas, formatos e dimensões do livro e do documento convém distinguir: 1) as formas ou disposições, 2) os formatos ou dimensões.

 

O livro conheceu formas muito diversas. Foi feito, sucessivamente, de placas amarradas umas às outras (livros orientais); em rolo (em latim, i, donde volume); de folhas separadas encadernadas ou amarradas (do latim, codex, codices, donde código) a forma atual.

Atualmente, o livro, isto é, o documento, apresenta-se em cinco formas fundamentais:

a) em folha aberta, in-fólio (cartaz, anúncio, jornal, quadro mural);

b) em volume (códice) encadernado;

c) em fichas, solto;

d) dobrado (mapa em embalagem);

e) em rolo guardado num tubo (plantas).

 

A cada uma dessas formas correspondem certas vantagens (visão de conjunto, documento em biblioteca, crescimento indefinido nos repertórios). As formas novas possíveis são numerosas, pois nada indica que a evolução as tenha esgotado.

O formato do papel é o tamanho obtido com a dobragem da folha. A dobragem do papel faz com que ele se multiplique. Quatro dobras resultam em 16 partes. A dobragem das folhas de papel nos dá páginas. Obtêm-se, sucessivamente, estes resultados:

1 dobra

4 páginas

2 dobras

8 páginas

3 dobras

16 páginas

4 dobras

32 páginas

 

O papel presta-se a todas as dobras. Um livro representa papel dobrado. Porém, a fantasia dos autores e dos editores, sobretudo em matéria de publicidade, chega a várias soluções de dobragem, às vezes surpreendentes. Os mapas de grande tamanho, dobrados soltos ou em volumes, também nos mostram o partido que se pode tirar da dobragem. A dobra dos mapas permitirá ter voltada sempre para o leitor a parte do mapa que ele deseja consultar.

Nas obras impressas as folhas dobradas dão origem às páginas, formando cadernos que recebem uma numeração para facilitar sua reunião e a encadernação. Esse número é impresso com tipos pequenos no pé da página e leva o nome de assinatura. As designações in-fólio, quarto, octavo, etc. geralmente causam confusão, pois não indicam as dimensões do livro, mas o número de páginas por folha de papel.

Um in-fólio

4 páginas

Um in-4°

8 páginas

Um in-8°

16 páginas

Um in-16°

32 páginas

 

quer dizer, 2, 4, 8 ou 16 páginas em cada lado do papel.

O formato dos livros era indicado antigamente na forma in-4°, in-16°, etc. Para ter mais precisão, mede-se agora em centímetros com o emprego de dois fatores, em que o primeiro é a altura e o segundo, a largura. Ex.: 28 × 12.

 

Dimensões aproximadas dos diferentes formatos:

In-fólio

45 × 32

In-4°

33 × 25

Petit in-4°

26,5 × 19

Grand in-8°

25 × 17

In-8°

22,5 × 14

In-16°

19 × 12

In-12°

17,5 × 10,5

In-32°

16 × 10

 

Às vezes os formatos são indicados por convenção. Assim, na biblioteca central de Florença e em muitas outras a indicação é feita da seguinte maneira:

In-fólio

o volume acima de 38 cm de altura

In-4°

o volume de 28 a 38 cm de altura

In-8°

o volume de 20 a 28 cm de altura

In-16°

o volume de 15 a 20 cm de altura

In-12°

o volume de 10 a 15 cm de altura

In-32°

 

o volume abaixo de 10 cm de altura.

 

Têm sido pesquisados melhores formatos e justificativas para os romances e outros livros, portáteis, destinados mais a uma leitura rápida do que a uma conservação por tempo indefinido.

 

Com o formato do livro, buscou-se a maneira de segurá-lo numa das mãos, fechado (leitura na cama, na poltrona, no trem), dobrado em dois sem estragá-lo; buscou-se também a maneira de guardá-lo no bolso (ex.: catálogos de exposições e de museus). Os formatos das fotografias não guardam qualquer relação com o formato

das publicações e repertórios.

 

O formato tem grande influência no custo de impressão. No passado, encontravam-se os grandes formatos, os in-fólio. Progressivamente foi-se chegando aos formatos reduzidos de hoje em dia. Foi Aldo Manuzio quem, para facilitar a difusão da literatura latina, adotou o formato petit in-8º, que, antes dele, somente era usado para missais.

 

O envoltório do livro: brochagem, aparagem e encadernação. O livro, depois de impresso, precisa de três coisas: 1) que as folhas não corram o risco de se dispersarem, o que é a função da brochagem ou costura; 2) que as páginas possam ser lidas sem que o leitor tenha de separá-las, essa é a função da aparagem; 3) que o conjunto fique protegido dos riscos de deterioração; essa é a função da encadernação.

Para manter juntas as folhas de documentos de qualquer formato e assim formar unidades compostas de nível sucessivamente superior (documentos distintos) há toda uma série de recursos:

1) colocá-las soltas em invólucro de papel ou cartão correspondente à unidade superior (pasta); 2) reunião móvel de folhas soltas, com capa comum, passível de ser facilmente desfeita, perfuradas e presas em pastas registradoras ou classificadoras, por meio de argolas ou grampos, ou por pressão de mola lateral (encadernação chamada électrique); 3) Encadernação fixa de três níveis: brochado, cartonado e encadernado propriamente dito.

Os três dispositivos acima descritos (folhas soltas, móvel e fixa) têm suas vantagens e seus inconvenientes: a) rapidez de uso; b) custo do material; c) garantia contra a dispersão; d) proteção contra o atrito e o desgaste das folhas; e) intercalação contínua; f) espaço ocupado; g) aspecto externo.

A encadernação pode ter várias funções ou utilidades: a) Garantir, preservar; b) Ornar, embelezar; c) Evocar o conteúdo, símbolos; d) Significativa: ajudar a que tenha um significado, como, por exemplo, encadernação em cores que representam algo convencionado; e) Tornar mais compacto. Exemplo extremo de compactação obtido com uma boa encadernação é o Webster’s new international dictionary. Esse dicionário abarca 400 mil palavras em 2700 páginas em um volume.

Espécies. A encadernação da época moderna pode ser dividida em três partes: 1° a encadernação artística; 2° a encadernação de amadores ou de bibliotecas e a de luxo; 3º a encadernação comercial e a encadernação industrial (encadernação da editora). A encadernação comercial data de apenas uns sessenta anos e teve grande avanço; tem origem na indústria, assim como a encadernação usual que é feita em inúmeras oficinas e que serve para proteger os volumes das bibliotecas destinados ao empréstimo, ou volumes de pouco valor, os volumes valiosos, doações, catálogos, etc.

A encadernação artística. A encadernação de nossa época apresenta certas características. A riqueza, a beleza de um material escolhido de maneira uniforme, polido, de fino grão e coeso. A alegria, o brilho do colorido dos couros nela empregados. São recortados em mosaico, mais ou menos cubistas, onde o ouro, a prata e o marfim vêm somar uma nota cintilante e que emite reflexos.

Empregam-se as letras do título e as do nome do autor como único elemento decorativo. As pastas do livro são perfuradas, deixando aparecer as guardas, geralmente de couro, através desses orifícios.

Na encadernação decorativa como tal, convém lembrar que o livro é feito para ser colocado nas prateleiras de uma biblioteca e deve ter na lombada sua localização e as pastas não podem ser enfeitadas com elementos que dificultem sua inserção na sequência ou atrapalhem o manuseio. Também será conveniente ter em conta que uma decoração suntuosa, que exigiu muito trabalho, não se dá bem com a matéria-prima: vitela, pergaminho, quando existe o marroquim. A mulher sobressai na encadernação assim como na toalete.

Encadernação da editora. Até meados do século XIX não se vendiam livros encadernados na Alemanha, e a encadernação era um assunto pessoal do comprador. Em 1882, um livreiro de Leipzig teve a ideia de oferecer a seus clientes livros encadernados e prontos para serem lidos.

Processos de encadernação: a) por costura; b) por perfuração; c) por pressão. As máquinas vieram revolucionar a arte, antes totalmente manual, do encadernador. Há máquinas de dobrar, brochar, arredondar a lombada e encapar os livros. Uma máquina de arredondar a lombada consegue passar de 500 ou mil a cinco mil ou seis mil livros por dia. Uma máquina de encapar livros e revistas faz 22 mil exemplares por dia.

Materiais. Os materiais utilizados na encadernação são madeira, couro (pergaminho, velino chagrém, carneira), tecidos (seda, veludo, tela) e papel.

Artifícios da encadernação. Alguns artifícios usados na encadernação: Os cantos e o pé do livro são protegidos com lâminas de cobre. Intercalação de páginas coloridas para indicar divisões. Encadernação com rótulos coloridos no dorso (em coleções de códigos de direito). Marcadores de página de cores diferentes (também nas coleções de códigos de direito). Foi proposto à American Library Association que adotasse cores para as encadernações de livros, que, convencionalmente, correspondessem aos assuntos tratados nos livros, de acordo com a Classificação Decimal.

Conservação das encadernações. A encadernação, para ser conservada, requer cuidados, principalmente se for de couro. O couro se deteriora por si mesmo, e precisa de revestimentos e pomadas que lubrifiquem suas fibras, tornando-as macias e resistentes, além de menos porosas, o que contribui para suportem os gases nocivos em suspensão na atmosfera.

Os elementos gráficos são compostos por signos. Existem as ideias ou coisas significadas e os signos das ideias ou coisas significantes.

O livro é a expressão do pensamento por meio de signos. Todo pensamento que se exprime tem necessidade de signos exteriores. Como consequência da evolução, a fala, de um lado, e a imagem, de outro lado, tornaram-se os dois signos mais importantes. A fala foi representada pela escrita, espécie de imagem, cujos principais tipos, hoje em dia, são de base fonética. A imagem, por sua vez, de início concreta, deu lugar à imagem abstrata de onde saíram no começo os ideogramas e os alfabetos, e atualmente os gráficos, os diagramas, os esquemas, as notações derivadas dos alfabetos ou formadas de signos convencionais.

No documento, no livro, a escrita, a imagem e a notação assumem seu lugar e, na atual etapa de nossa evolução, elas se combinam e se fundem em disposições e proporções variadas para, como em sua origem, expressar o pensamento do modo mais apropriado e integral possível.

Na escrita alfabética, afirma Condorcet, um pequeno número de signos é suficiente para escrever, assim como um pequeno número de sons é suficiente para tudo dizer. A língua escrita era a mesma língua falada. Só havia necessidade de saber reconhecer e combinar esses signos pouco numerosos e esse passo garantiu para sempre o progresso da espécie humana.

Em última análise todo sistema de signos baseia-se nas propriedades físicas dos corpos, que se manifestam por meio de vibração e são perceptíveis pelos sentidos. As vibrações são visíveis, audíveis ou táteis. Os dispositivos permitem a transformação de umas em outras. Existem, portanto, documentos visíveis, audíveis e táteis. Todos os sentidos foram utilizados pelos signos. O papel, por exemplo, foi impregnado com certo perfume para afastar as traças. Seria possível, então, imaginar livros destinados a transmitir diversas impressões odoríferas. Foi possível incorporar relevo ao papel, gofrar, estampar, perfurar ou ainda pontilhá-lo com os códigos braile para os cegos; o livro dirige-se assim ao sentido do tato. O cilindro fonográfico ou o rolo da pianola destinam-se à audição. E temos o livro para a escrita e a imagem, ou seja, para a visão. Assim, por meio da visão, do ouvido e do tato, o livro tornou-se um instrumento para despertar os sentidos, a todo instante, numa ordem determinada e também para suscitar no espírito um encadeamento de ideias e sentimentos.

As escritas são de duas formas: alfabética e ideográfica.

Um alfabeto é uma série de signos ou caracteres que provavelmente começaram como desenhos, mas que, depois de usados por muito tempo, foram abreviados e simplificados, sendo atualmente empregados como símbolos de sons elementares da voz humana. As combinações desses signos, que chamamos letras, formam palavras. Servimo-nos das palavras como signos de ideias e as combinamos para formar uma língua. Como essas combinações são simplesmente arbitrárias e formadas para cada língua, elas são ininteligíveis por pessoas que falem língua diferente.

Os ideogramas, como as letras, de início foram desenhos, que se tornaram, depois de usados por muito tempo, simples marcas feitas facilmente com o auxílio da pena ou lápis. Não são mais desenhos, mas meros símbolos arbitrários das ideias, inteligíveis para as pessoas que os aprenderam e não pelos demais. Os ideogramas que, provavelmente, não começaram como desenhos, e que são conhecidos no mundo inteiro, são os algarismos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 0.

Os signos mnemônicos existem ao lado da escrita pictográfica. Ex.: o bastão do mensageiro, os quipos, como o nó no lenço, as contas do rosário, os encoches do padeiro.

Precisamos de uma teoria geral do signo, do algarismo, da notação, do alfabeto, da imagem. Precisamos de um sistema gráfico universal que abarque todos os signos, de um lado, adaptado a todas as necessidades de expressão, de outro lado.

Ao longo das eras, foi criada uma quantidade considerável de signos gráficos; de seu conjunto derivaram progressivamente os alfabetos. Dos diversos alfabetos derivaram alguns alfabetos principais e essa tendência continuou até a unificação com base no alfabeto latino. Imagina-se para o futuro um grande sistema coordenado de signos gráficos que se estenda a todas as línguas, a todos os modos de expressão suscetíveis de exprimir a realidade inteira percebida e refletida pelo pensamento.

Ao lado da escrita usual encontra-se uma categoria importante de signos e convenções: a notação e as abreviações. Aqui também se coloca o problema de um sistema universal de notação.

A notação (a forma anotada) situa-se entre as palavras da língua (texto) e a imagem. Ela expressa de forma convencional: 1° elementos, partes ou aspectos (termos); 2° as relações entre eles (fórmulas, questões); 3° a classificação dos elementos e das relações; 4° eventualmente seus números e suas medidas; 5° a expressão condensada de leis.

Uma vez alcançado um certo desenvolvimento, as ciências criam sua notação. Assim, temos as notações da matemática e da química. Essa notação é mais ou menos desenvolvida, completa.

Uma notação integral das ciências bibliológicas compreenderia as cinco ordens de elementos antes citadas. Realizações iniciais da notação bibliológica se encontram:

a) na criação da bibliometria; b) nas fórmulas da psicologia bibliológica; c) nas tabelas de classificação bibliográfica, principalmente nas da Classificação Decimal.

O número: diz-se de signos ou conjuntos de signos que representam uma quantidade. Algarismos: O algarismo é a expressão material de uma grandeza numérica, assim como a palavra é o signo de uma ideia. Ambos correspondem, de igual modo, a uma operação fundamental do espírito e são, portanto, igualmente independentes.

O sistema universal de unidades assumiu a forma científica final com base no centímetro, no grama e no segundo, que se exprimem na forma de números comuns que seguem a multiplicação e a subdivisão decimal de todas as unidades (sistema decimal, sistema métrico, sistema CGS). A numeração sequencial de qualquer tema reveste-se de grande importância. Numeram-se as dinastias, os soberanos, os pontífices, etc.

A técnica criou uma notação própria, que aplica às plantas de projetos e, às vezes, às próprias coisas: máquinas, instalações e locais. Por ex., a notação relativa à eletricidade.

A notação química representa geralmente o átomo de um elemento simples com uma letra simbólica e a molécula de um composto por meio de reuniões de um certo número desses símbolos. Hoje em dia, a estereoquímica criou um modo de representação das relações de compostos por meio de figuras tridimensionais. A notação química tem uma história muito longa. Ela passou por radical transformação graças a Lavoisier e Berzelius. Sua evolução continua.

A notação musical surgiu entre os gregos, mas sua chave se perdeu na Idade Média. E ela cria sua própria notação, essas neumas como ‘patas de moscas’ (pedes muscarum). Essa ‘dança de mosquitos’ (Mückentanz, como diz Ambros) indicava vagamente a direção vocal, sem valor e nem mesmo intervalos precisos.

As neumas eram sinais de notação musical, empregadas de início no cantochão e mais tarde também na música profana. Em sua origem, as neumas eram simplesmente acentos como os que, na gramática, marcam as inflexões da voz durante o discurso. Sua forma, de início cursiva e solta, torna-se maior, mais angulosa, até chegar à notação quadrada. Cada uma delas possui um nome específico: ele indica se a voz deve subir, descer ou se manter uníssona sem, contudo, revelar a nota uníssona ou o grau exato de descida ou subida: supõe-se que a melodia seja conhecida pelo uso. Como paliativo à insuficiência dessa notação, Guido d’Arezzo, no século XI, introduz o emprego da pauta, composta de quatro espaços, na qual ele distribuirá as neumas.

Posteriormente, chegou-se à forma atual de notas correspondentes aos tempos, aos compassos e às claves. O regente da orquestra, ao dirigir uma grande ópera (de Strauss, por exemplo), tem diante de si uma partitura que chega a ter 27 pautas sincrônicas, correspondentes a cada uma das partes, instrumento ou voz. Foram realizados trabalhos notáveis para, de um lado, traduzir para signos musicais modernos a música antiga ou exótica, e de outro lado, substituir por um sistema de notação mais simples e mais racional o sistema que se tornou tradicional.

Leibniz, com sua characteristica universalis, imaginou um simbolismo para exprimir qualquer ideia, semelhante aos símbolos algébricos. Esse simbolismo foi obtido nos tempos modernos por Boole, Peano, Burali, Whitehead, Russell, etc. (simbolismo lógico, matemático). A lógica foi aplicada às questões mais controversas da filosofia antiga e moderna (J. Butler, Burke). Os símbolos da álgebra e da lógica constituem uma língua internacional semelhante ao esperanto e à interlíngua.

Sistema de notação. Os algarismos, as letras e os símbolos convencionais constituem elementos de notação. Para estabelecer um sistema desenvolvido de notação com letras dispomos de três sistemas. 1° Os expoentes. Ex.: o sistema da Bibliothèque Nationale de Paris. Ex.: A1, A2, A3. As repetições de letras. Ex.: AA, BB, CC, etc. 3° A combinação de maiúsculas: Ex.: AB, AC, AD, etc.

Notação universal. Percorrendo as publicações de cinquenta anos atrás (1882–1932), verifica-se que existe, inegavelmente um novo aspecto da mancha tipográfica. Ela era formada quase inteiramente de texto compacto, composto com caracteres tipográficos, na primeira das datas indicadas. Agora, no entanto, o texto é cada vez mais reduzido e reprimido, produzindo um efeito duplo em sentido inverso: com as imagens, as publicações se tornam acessíveis a um número maior de pessoas; com os esquemas, os mapas, os diagramas, as notações científicas e as fórmulas matemáticas, o texto se dirige a leitores cada vez mais especializados.

Nasce assim toda uma nova linguagem gráfica, linguagem composta, feita do emprego simultâneo desses diversos meios de expressão. Antigamente, bastava saber ler os caracteres alfabéticos. Hoje em dia, é preciso aprender a ler e a compreender os outros modos de expressão gráfica. E há novos ‘analfabetos’ e uma espécie de novo analfabetismo. Com os modelos das coisas, com sua representação ao mesmo tempo figurada mais concreta e mais abstratamente, os problemas passam a ser mais bem compreendidos e com mais clareza, as definições são mais precisas, os diferentes seres, estados e fenômenos são mais bem separados e ordenados, suas relações são mais bem determinadas. Finalmente, tudo se mede e as consequências das medidas aparecem sem dificuldade.

Talvez estejamos no caminho de um método universal de expressão. Ele combinaria o essencial do que nos oferece: a) a observação lógica das relações e dos sistemas de relações; b) a terminologia racional; c) a notação (simbolismo, algoritmo); d) os processos do cálculo e das equações matemáticas; e) a classificação; f) as formas da documentação. Tudo que hoje existe em estado separado nessas seis ordens de ideias, que se estendem à linguística, à matemática, à lógica e à documentação, não seria mais considerado a não ser como casos particulares de uma teoria geral.

Teríamos assim uma notação para o conjunto de conhecimentos sobre o universo e a sociedade. Isso seria um progresso imenso. Por muito tempo as fórmulas de Riemann, desenvolvidas por Einstein, têm sido consideradas como um andaime de símbolos matemáticos, uma engenhosa álgebra. Eis que somos levados a ver nisso um dos precursores de uma figuração de tudo o que compreende o vasto mundo. A notação teria um desenvolvimento universal paralelo ao da classificação e do esquema.

A ilustração do livro e do documento assume a forma de imagens reais, de imagens esquemáticas e de padrões decorativos. A palavra ilustração é um termo genérico que se aplica ao conjunto das figuras e desenhos que uma obra contém, quaisquer que sejam suas espécies, sua qualidade e seu número. Este termo inclui, portanto, todas as formas de apresentação, todos os documentos que não sejam textos. Ele corresponde à palavra inglesa picture.

A história da ilustração do livro é marcada pelas seguintes etapas:

 

a) A iluminura ou pintura de livros: uma das principais expressões da arte da Idade Média. Fonte de informações sobre a pintura dos séculos anteriores ao Renascimento; uma arte de extrema meticulosidade. Westwood (paleógrafo inglês), com uma lupa, contou, em uma superfície de meio centímetro quadrado, 158 entrelaçamentos de uma delicada fita colorida, ornada de traços brancos, sobre fundo preto. Arte complexa, essencialmente convencional.

b) A partir de 1423, encontram-se gravuras populares em madeira na própria origem da imprensa. Os primeiros impressores queriam que os produtos de suas prensas competissem tanto quanto possível com as obras dos calígrafos e iluminadores antigos. Isso os levou naturalmente a inserir imagens em suas publicações. Os livros com imagens, impressos em um só lado da folha, cujo texto era apenas o acessório das figuras, antecederam até mesmo os livros nos quais a imagem não é senão o ornamento, a elucidação, a ilustração do texto.

c) Século XV. Gravura em talhe-doce (metal) inspirada na arte do nigelador, mas a madeira permanece para o livro.

d) Séculos XVII e XVIII. Gravura em metal.

e) Século XVIII. Litografia.

f) Século XIX. Gravura sobre madeira (a topo). Fotogravura. Tricromia.

 

A partir do século XIX aparecem os grandes periódicos ilustrados, revistas com abundância de gravuras, que, em cada país, e em grande número, trazem a cada mês, a cada semana, até a cada dia, a ilustração gráfica dos acontecimentos da atualidade. Os jornais diários abriram espaço para as imagens e são publicados fartamente ilustrados. As revistas de moda estavam entre as primeiras a publicar ilustrações.

 

Os maiores artistas de todos os tempos contribuíram para a ilustração dos livros. Alguns artistas desenhistas e gravadores se distinguiram particularmente como ilustradores.

Jamais houve tantos livros ilustrados e tantas ilustrações de livros. Além disso, nunca tantos artistas ilustraram ou se dispuseram a ilustrar um texto. Há 20 anos todos se dedicam a isso. Na Alemanha, a ilustração de livros alcançou tão grande difusão que

foi chamada de Illustrationsseuche (epidemia de ilustração). Nossa época, afirma Neurath, pode quase ser chamada de Era dos Olhos.

 

A democracia moderna teve início com o discurso, a imprensa e o livro. Hoje, é o cinema, o cartaz de rua, a revista ilustrada e a exposição. O livro realmente se torna cada vez mais uma mistura de textos e ilustrações.

Qual é a melhor dessas combinações? 1° Inserção de ilustrações no texto. O texto, porém, não deve ser dividido e fragmentado por tantas reproduções, separado em retalhos quase invisíveis por inúmeros elementos não textuais, ao ponto de dificultar sua localização. Por outro lado, é difícil organizar, sem complicação ou monotonia, as ilustrações exemplificativas com os textos que as comentam. 2° Publicação separada do texto, acompanhada de um sistema conveniente de remissivas, de um volume de ilustrações e estampas. 3° Publicação na forma de monografias em folhas, com a imagem como parte principal e o texto como seu comentário.

 

A imagem é uma figura que representa uma coisa, obtida por qualquer um dos processos das artes do desenho. A superfície refletora formada pelo espelho e o vidro ampliou a visão do homem. Primeiro ele conseguiu se ver, depois conseguiu colocar sua visão em condições mais práticas, pela reflexão de ângulo, em ângulo como nas lunetas astronômicas. Condillac instruía sua estátua mostrando-lhe imagens e sons.

Espécies de imagens reais que representam objetos, sua aparência física real ou artisticamente interpretada, desenhos à mão às vezes multiplicados pelos processos de reprodução e as imagens obtidas pela fotografia, que também podem ser reproduzidas tipográfica ou litograficamente, a fotografia também servindo para reproduzir o próprio desenho à mão. Desenho e fotografia podem ser documentários ou artísticos; podem ter em vista a ilustração ou ornamentação do livro; ser inseridos nele ou ser objeto de um documento distinto e separado.

Teoria científica.

a) Segundo a física, a imagem é a reprodução de um objeto como efeito de certos fenômenos ópticos: um espelho reflete uma imagem, a fotografia fixa a imagem da câmara escura, forma-se em cada olho uma imagem de um objeto. A imagem vista no espelho ou na água parece estar invertida.

b) Distinguimos a imagem real da imagem virtual. A imagem real é aquela que se forma em um lugar diferente daquele que o objeto ocupa, pela convergência de raios desviados por refração ou por reflexão, como a que se forma na frente dos espelhos côncavos. A imagem virtual é aquela que não se deve à convergência efetiva dos raios luminosos. O olho recebe a impressão por causa de um erro dos sentidos que faz supor a existência do objeto no prolongamento em linha reta dos raios desviados, como são percebidos na parte de trás de todos os espelhos.

c) Existe na física (óptica) uma teoria da produção de imagens; em fisiologia, uma teoria da percepção das imagens; na psicologia, uma teoria da associação de imagens; na pedagogia, uma teoria educacional das imagens. A bibliologia exige uma teoria da transmissão dos conhecimentos por meio de imagens cada vez melhores, cada vez mais multiplicadas e difundidas ao máximo.

d) Em uma imagem (paisagens, retratos ou cenas de costumes), não se trata de relações explícitas, como acontece na linguagem (oração, sujeito, verbo, complemento), mas de relações implícitas. Pois, ou a imagem exprime relações preexistentes no espírito, no qual já estão traduzidas em palavras, ou, então, a imagem esboçada na origem é em seguida traduzida em palavras.

 

As relações e os elementos da imagem são suportados pelos objetos figurativos, pelas propriedades atribuídas a eles (tamanho, forma, cor), pelas relações de posição que ocupam. A imagem é de percepção simultânea, enquanto a linguagem falada ou escrita é de percepção sucessiva; portanto, a mente não pode percebê-la instantaneamente. A mente deve analisar as relações implicitamente incorporadas na imagem e então, uma vez entendidas, pode usar a imagem como uma substituição da síntese compreendida, substituição na qual é sempre capaz de encontrar todos os elementos analisados e também outros.

 

Diferentes das imagens que transmitem as aparências reais das coisas (imagens físicas e concretas) há aquelas que nos proporcionam a figura ideológica: imagens intelectuais e abstratas. As primeiras levam às segundas por meio de transições imperceptíveis. Os esquemas são úteis para a assimilação de conteúdos pela mente, como também o são os quadros sinópticos e os de assuntos tratados no livro.

As imagens esquemáticas incluem: a) os esquemas propriamente ditos; b) os gráficos ou diagramas que traduzem os dados numéricos de medidas e estatísticas em linhas (curvas), superfícies e blocos.

 

Diagramas. Para representar valores numéricos, linhas e figuras de documentos de grande proporção, elaboramos diagramas que, por mais que sejam aproximativos, são, no entanto, muito interessantes. Os diagramas são desenhos geométricos que servem para demonstrar uma proposição a ser resolvida, um problema, para representar a situação de algo ou para mostrar graficamente a lei de variação de um fenômeno. Assim, os diagramas são formados por curvas que traduzem em linhas os números que medem os fenômenos. Duas curvas da mesma escala comparadas entre si mostram em sua diferença uma relação que, por sua vez, pode assumir a forma de uma terceira curva diretamente comparável às outras duas. Ex.: o diagrama de Rueff: uma relação entre a curva de desemprego e a que representa as relações dos salários com os preços por atacado.

O diagrama, figura geométrica, tem uma forma que varia com os dados representados. Pode-se conceber a criação de um aparelho que forneça um diagrama analógico do fenômeno, cuja configuração inteira varia de acordo as transformações do próprio fenômeno. As propriedades do diagrama podem ser estudadas matematicamente, especialmente pela trigonometria. Elas podem proporcionar medidas que serão aquelas dos fenômenos e um registro fotográfico que enseja um filme cinematográfico.

Os resultados de uma pesquisa podem ser vantajosamente mostrados na forma de diagramas. Ex.: van t’Hoff e seus discípulos, tendo formulado as leis da cristalização de sais marinhos, colocaram-nas na forma de diagramas triangulares (estereoquímica).

O harmonograma é o quadro cronológico de todas as etapas previstas para a realização de determinado trabalho a ser concluído em uma data estabelecida. É um instrumento de previsão, coordenação e controle pelo qual a gerência e seus colaboradores mantêm sob constante supervisão todas as operações específicas a serem realizadas. A concatenação e concomitância de todas as operações estão ali intuitivamente justificadas.

Nenhuma memória humana poderia substituir esse instrumento sinóptico que permite realizar de maneira metódica e segura milhares de operações. Exemplo: o quadro cronológico da exposição de Bruxelas, de 1935, inclui 85 colunas verticais que podem conter quase 3 200 fichas e indicar as várias categorias de obras. Elas são cruzadas por colunas horizontais que permitem acompanhar mês a mês a realização de cada uma das obras projetadas, desde o início até o fim. A transcrição do harmonograma mostra o resultado da análise de um arquivo administrativo e proporciona a imagem de sua vida.

Os gráficos também são desenhos simplificados. Eles constituem uma linguagem, a linguagem da linha. Em qualquer estudo em que a forma seja relevante (por ex., a zoologia), a arte do desenho registra as características e as vincula estreitamente à estática, à mecânica e à anatomia animal. Dá formas a esses três pontos de vista, numa compreensão rápida e segura.

No campo da botânica, descrições, chamadas de pen portraits, foram publicadas na Holanda. Em vez de diagnoses excessivamente detalhadas, encontram-se nessas obras descrições, esquemas, que, em um relance, equivalem a diagnoses. Não é mais a um texto que se dá acesso, mas à visão direta, esquemática.

Os organogramas das instituições (empresas, administrações, institutos, secretarias) visam a mostrar visualmente: a) a composição do sistema: seus órgãos, seu papel, sua composição, seu organismo; as atividades e a ordem em que devem ser executadas; os organismos acessórios; b) os vínculos entre as diferentes partes do sistema e algumas dessas partes e o exterior do organismo. Esses vínculos são um dos principais objetivos do gráfico; c) as funções e os nomes dos executores; d) a ordem cronológica de atividades e tarefas; e) os diversos métodos que sejam úteis conhecer

para a execução do trabalho.

A arte de elaborar esquemas (a esquemática) deve tornar-se um ramo da bibliologia; ela é, assim como esta, a teoria do registro e da exposição metódica dos conhecimentos científicos.

O avanço progressivo da constituição de uma linguagem esquemática comum consiste em: a) encontrar uma expressão diagramática para a exposição de qualquer ideia; b) chegar a um acordo coletivo sobre os esquemas básicos para que, uma vez realizados, os estudos atendam a todos; c) fazer com que, no esquema coletivo básico, cada um indique o que seu trabalho aporta de novo, seja como acréscimo ou como modificação. Bastaria atribuir cores que sejam convencionadas ao que é geral e conhecido, às peculiaridades individuais e às conclusões próprias do trabalho.

 

O Österreichische Gesellschafts und Wirtschaftsmuseum, em Viena, produziu um verdadeiro renascimento dos hieróglifos da ideografia (Wiener Methode). No campo da estatística social, ele formulou este princípio: “O que pode ser expresso em imagens e cores não deve ser expresso em signos alfabéticos.” Esse feito atendeu às necessidades da visualização e da estética.

No caso das tipografias, será preciso fundir fontes para a composição tipográfica de diagramas e cartogramas. Se elas existissem e se as indicações para seu uso fossem formuladas e difundidas, os autores certamente achariam uma maneira de expressar ou especificar muitas ideias ao usá-las, recorrer a clichês especiais, de preço geralmente proibitivo.

 

Ilustração é uma coisa, decoração é outra. Composição pitoresca e composição decorativa.

Na Idade Média, a caligrafia empregava ornatos, miniaturas, vinhetas de toda espécie. No início, a gravura em madeira, então chamada de gravura em relevo, era executada com madeiras lenhosas e fibrosas, de faia ou de abeto, usando como única ferramenta um canivete. Os entalhadores de imagens simplesmente se esforçavam para gravar o desenho traçado na madeira; nisso empenhavam muito pouco de ciência e toda sua alma: seus ingênuos fac-símiles jamais foram superados.

O que chamamos de adaptação tipográfica é procurado hoje como uma qualidade muito rara. Naquela época, ela surgiu espontaneamente, um dia em que o gravador traçou o desenho e a letra no mesmo bloco. O instinto

e o gosto fizeram o resto: nunca imagens mais francas e vigorosas se casaram tão harmoniosamente com o texto.

Infelizmente, durante o século XVI, outra busca veio alterar o caráter próprio da gravura em madeira. Os gravadores que buscavam produzir os efeitos da perspectiva aérea das pinturas imitavam as obras encantadoras das gravuras abertas em cobre com buril, que se desenvolvia paralelamente. O talhe se estreitava continuamente, comprometendo o resultado da impressão.

Nos séculos XVII e XVIII, a gravação em cobre substitui a xilogravura no livro quase completamente. A água-forte, especialmente, nessa época gloriosa, alcançou um êxito notável. Devido à precisão do traço e à agilidade sedutora da técnica, ela atinge admiravelmente seu objetivo: o arabesco brota espontaneamente na página, ilustração direta, viva, acompanha o texto rapidamente em graciosas fantasias, enquanto o preto dourado do entalhe se harmoniza prazerosamente à cor das fontes, resultando numa

unidade perfeita. Durante a Revolução, o livro bonito [beau livre] desaparece completamente, e todas as tentativas do século XIX não conseguiram renovar as boas tradições dos séculos anteriores. Do ponto de vista da ilustração, as diferentes técnicas de gravação se fundem ou colidem; a gravura em madeira, que vegetava tristemente, tornou-se interpretativa, diz-se ‘em tom’ e procura traduzir com as tintas todas as nuanças do modelo.

Além disso, o buxo substituiu a madeira fibrosa e sua composição perfeitamente homogênea, resistente e plástica, se presta a todas as virtuosidades do buril, mas, infelizmente, a habilidade jamais substituiu a arte.

 

A gravura desapareceu do ofício e o surgimento da fotografia veio completar sua derrota.

Foi em torno de meados do século XVI que a gravura a talho-doce foi introduzida no livro. As primeiras gravuras deste tipo têm uma fatura rígida imposta pela ferramenta. — Jacques Callot e Abraham Bosse, no entanto, conseguiram dar ao buril uma leveza extraordinária que, modificando a técnica de gravura, preparava o advento da água-forte.

No século XVII, os grandes mestres trouxeram a arte da água-forte à sua mais alta perfeição e, seguindo o inesquecível exemplo de Christophe Plantin, que recorreu a Rubens para suas ilustrações, todas as novas editoras deram preferência à gravação em cobre.

No reinado de Luís XIV — a idade de ouro do buril — a água-forte chega a seu pleno florescimento e os discípulos de Simon Vouet enfeitam os livros com reproduções ou criações gravadas em profusão.

Sob Luís XV, a mania da água-forte chega ao auge. Esse é o momento em que todos a praticam e a própria madame de Pompadour não hesita em nela colocar seus lindos dedos. O livro é enriquecido com vinhetas graciosas, delicadas, com motivos da natureza, enfeites de arabescos e encantadoras composições de mestres e pequenos mestres do século XVIII, cujas impressões de um amarelo-ouro se harmonizam tão bem com as elegantes fontes de tipos da época.

No século XIX, a invenção da fotografia acarretou a decadência da gravura, precipitando a do livro. (Tattegrain.)

Nossa época tende a suprimir os ornamentos. Ela, no entanto, não aprecia menos as belas formas bem proporcionadas, harmoniosamente ricas em cores; ela as encontra particularmente na natureza. O modernismo evolui rapidamente, já se pode considerar que ele retrocede a 1900, 1910, 1920 e 1925.

Alguém indagou: um livro deveria ser enfeitado apenas com elementos ornamentais ou deveria ter representações dos personagens? Contra a figuração de personagens alega-se que há um grande risco em lhes atribuir um corpo. Cada leitor faz isso segundo seu temperamento e seu gosto. Um artista precisa ser um gênio para impor a sua concepção de personagem. (Ex.: Gustave Doré criou Gargantua, Naudin encarnou O sobrinho de Rameau, Brouet, Les frères Zemganno). Um ornato, uma paisagem, pelo contrário, acompanharão o texto sem entrar em conflito com ele. Assim faziam os editores franceses do século XVII. Os deste pós-guerra retornam às versões semiluxuosas ou simplesmente tipográficas. Fernand Lot disse sobre Gustave Doré: “Tradutor do sonho dos mais elevados poetas de todos os tempos, ele não esteve aquém da sua tarefa. Ele soube tão bem incorporar seu próprio sonho que, sem ele, Cervantes, Dante e Ariosto seriam empobrecidos.”

Existe toda uma geometria de traços, baseada sobretudo em projeções e na perspectiva. Há uma composição decorativa resultante da combinação de pontos, linhas, planos e panos de fundo. O monograma é um signo emblemático composto de letras entrelaçadas ou ligadas que representam o nome próprio de uma pessoa.

Devemos aplaudir o progresso alcançado pelos processos fotomecânicos. Do ponto de vista documentário, o campo da ciência é um dos mais vastos e não tem qualquer interesse em cruzar seus limites. Por outro lado, o campo da arte pertence aos artistas, e o livro de arte necessita de especialistas conscientes. O livro é um conselheiro; ele guia, inspira e educa. O beau livre é, além disso, um amigo precioso. É preciso poder amá-lo sem segundas intenções e, para isso, nenhum detalhe dele pode ser negligenciado.

Os documentos na sua maioria são constituídos por elementos linguísticos; eles são expressos em determinado idioma; são uma tradução em signos alfabéticos das palavras da língua.

Há quatro termos a serem lembrados: a) a realidade ou a universalidade das coisas existentes; b) o pensamento, que concebe a realidade e organiza seu conhecimento científico, ou que, partindo da realidade, combina as concepções segundo as possibilidades da imaginação; c) a linguagem que expressa o pensamento; d) a documentação que registra e fixa a linguagem.

A documentação interessa-se, portanto, por tudo que se relacione às línguas. As questões relacionadas às línguas são complexas; suscitam um grande número de perguntas: o que é uma língua, quais são suas espécies e variedades, de onde vêm, como evoluem e se transformam. Qualquer aperfeiçoamento da língua implicará aperfeiçoamento do livro. Daí o interesse: a) no desenvolvimento da língua; b) no desenvolvimento da literatura; c) nas línguas artificiais internacionais que evoluíram bastante; d) na reforma ortográfica, que se impõe cada vez mais à medida que a educação se torna mais democrática e as massas populares são chamadas para conhecer a escrita e a leitura; e) nas reformas recentes: extensão alcançada pelo estudo de idiomas, número de pessoas que falam mais de uma língua, simplificação de línguas, da ortografia e da escrita; influência dos movimentos políticos (nacionalidade) e dos movimentos econômicos (negócios) no movimento cultural em que a língua é uma das expressões; influência da língua escrita sobre a língua falada, especialmente em sua fixação, traduções.

 

Os elementos intelectuais são as ideias (concepções, sentimentos, atividades, imaginações), são as formas como se exprimem as ideias (exposições científicas e didáticas, de um lado, e, de outro, exposições literárias e artísticas). O campo das ciências e do ensino tem crescido e provavelmente continuará crescendo imensamente, o das letras e das artes, também. Ao mesmo tempo, a correlação se tornará cada vez mais estreita entre o pensamento e sua expressão. O livro escrito tornou possível a concentração mental necessária para a criação de obras profundas, equilibradas, ricas de substância e impecáveis na forma. Se a memória de quem cria essas obras tivesse ficado entregue a si mesma, jamais teria podido alcançar esse resultado; o pensamento é tão sutil e tão fugaz que é preciso saber fixá-lo. A era das improvisações dos primeiros poetas há muito que se acabou. Basta imaginar o que o algoritmo, puro sistema de signos e símbolos, foi para as matemáticas e se entenderá a importância dessas formas bibliográficas e documentárias. Cada vez mais precisas, mais bem encadeadas umas às outras, elas se apresentam como moldes preparados para receber o pensamento, para exprimi-lo com o máximo de força, de clareza e, por conseguinte, de eficiência. Essas formas, esses moldes, serão o resultado do esforço coletivo, somado e progressivo.

Unidos pela preocupação de melhor ordenar as ideias, de projetar os textos para que destaquem mais ainda a ordenação e as relações, transformarão o livro, cada vez mais, em uma linguagem superior, inteiramente pensada, superpondo-se à linguagem normal das relações usuais, e que nele é totalmente espontânea. Tal linguagem será o instrumento adequado para a edificação de imensas arquiteturas de ideias, as quais virão a constituir, cada vez mais, nossa ciência, nosso ensino, nossas letras e nossa arte, partindo, também elas, do saber e do fazer primitivo para se elevar até a inteligência e a ação metódicas.

Assim visto, o livro torna-se o meio de elaboração do pensamento humano, a concretização desse pensamento em seus graus mais elevados. A bibliologia não se limita mais a ser tecnológica. Ela se torna, já o vimos, psicológica, pedagógica e sociológica.

Na apresentação do assunto aqui, é preciso distinguir as seguintes questões: a) as regras da composição literária em geral, a palavra ‘literária’ estendendo-se aqui a tudo que é letra ou escrito, portanto, à ciência e à técnica, e não menos à literatura. A composição literária é também chamada retórica; b) o estilo em geral; c) os diversos tipos de exposição; d) as diversas espécies de obras ou formas de livro; e) o conjunto de livros que podem, de um lado, ser caracterizados como científicos, e, de outro

lado, como literários.

A forma de um livro é muito diferente, conforme se trate de uma obra literária ou de uma obra científica. Fantasia e imaginação em um caso; rigor científico e racionalização em outro. No entanto, as formas de exposição, sejam elas literárias ou científicas, possuem em comum inúmeros elementos que convém examinar em conjunto.

As formas representam as diversas estruturas bibliológicas nas quais os materiais estão ordenados. As formas podem ser consideradas em seu estado simples, ‘elementar’, fundamental: constituem, então, partes ou

aspectos das obras. Podem ainda, ao se combinar, assumir a forma das próprias obras em sua totalidade e como tais serem definidas como as ‘formas das formas’. (Para relação e pormenores das várias formas, consultar a Classificação Decimal, Tabelas de subdivisões comuns de formas.).

A forma do livro não é arbitrária. Ela é amplamente determinada por necessidades, ou seja, por objetivos a serem alcançados. Mas, como acontece quase sempre, toda essa evolução foi provocada por necessidades muito limitadas e imediatas. Tais necessidades podem ser assim definidas: 1) registrar completa e facilmente; 2) recuperar facilmente o documento; permitir que seja lido rapidamente.

A forma do livro é o resultado de um trabalho coletivo, assim como seu próprio conteúdo. Quando se estuda o livro ponto por ponto, elemento por elemento, forma por forma, constata-se o imenso e secular esforço que foi necessário para criar o que hoje nos parece tão simples que não conseguiríamos imaginá-lo de outra forma. E também não podemos adivinhar tudo que o futuro nos reserva nesse campo das formas do livro.

A forma do livro é diferente de sua substância, pois os dados que ele contém são relativamente independentes. Dados de diferentes fontes (autores diferentes, países diferentes) podem ser comparáveis do ponto de vista da forma, pois dizem respeito a um mesmo objeto, ao mesmo tempo, e porque são expressos da mesma maneira. Apesar disso, esses diferentes dados podem, muito bem, não ser comparáveis, quanto à essência, sendo alguns o resultado de uma observação consciente, de um raciocínio lógico, e outros, ao contrário, resultando da fantasia e da invenção de todas as peças. Seria cometer um erro amalgamá-los, compará-los ou somá-los.

Há dois problemas que devem ser tratados separadamente: o dos métodos e da organização da pesquisa científica; e o dos métodos e da organização da expressão dada aos resultados dessa pesquisa (livro, documentação).

Esse último problema consiste principalmente em examinar quais são as qualidades de forma necessárias para que os dados científicos, depois de terem aparecido em documentos específicos, possam ser reunidos em livros gerais (enciclopédia universal). Dessa forma, os dados podem se relacionar a um objeto, a um fato, a um fenômeno determinado, enquanto outros, a um grupo de fatos, de objetos; uns sendo representados em determinadas unidades de medida, outros, não, etc. Eles podem ser redigidos de tal forma que a justaposição de textos, sua comparação e sua soma são impossíveis. Ao combinar esses diferentes dados comete-se de novo um erro, e, mesmo em certos casos, a diversidade de forma é tão aparente, tão forte, que seria absurdo querer tentar uma aproximação, agrupar a totalidade em uma mesma coluna, um mesmo quadro.

Vê-se, então, que as exigências de forma e conteúdo são diferentes e podem ser estudadas separadamente. As exigências de forma, sob certo aspecto, são mesmo mais essenciais do que as outras cada vez que se trata de coordenar trabalhos muito extensos, como são os trabalhos internacionais e os que incidem simultaneamente sobre os territórios de várias ciências ou ramos de atividade.

Até recentemente o livro era sintético: vasto conjunto histórico descritivo, instrutivo ou sentimental ou lírico. Exemplo, as epopeias, os grandes livros religiosos. Mais tarde ele se tornou analítico, tendendo a chegar à síntese racional.

Defrontam-se dois estados de espírito: uns a favor de uma verdadeira padronização da forma de exposição, pelo menos em suas grandes linhas, e capaz de ser explicado por meio de princípios e normas. Outros receiam essa padronização e proclamam a liberdade. La Bruyère dizia: “Entre todas as expressões do pensamento, há uma que é a melhor.” Depois da luta dos clássicos contra os românticos, encontrou-se um acadêmico para dizer que os gêneros em número e textura eram determinados de maneira imutável. Mas a imutabilidade das formas não existe e sua sistematização a todo custo não deixa de ter inconvenientes.

As formas de exposição são momentos. Ao serem criadas contribuem bastante para a ordenação das ideias; mais tarde, tornam-se tirânicas e amiúde cerceiam o pensamento. É preciso, então, proclamar o direito à liberdade de pesquisa em todos os sentidos (Pareto.).

O positivismo, com a preocupação de ligar e coordenar fatos e dados intelectuais, representou um sério estorvo ao livre movimento das diversas ciências. (de Ruggiero.) Existem, além disso, exposições científicas que não refazem sistematicamente a ciência, mas que tocam em todas suas partes, para renová-las e conduzi-las para novos caminhos. Ex.: a obra de Poincaré.

Os escritos são de diversos tipos, assim como os pensamentos: os que se esforçam para ser objetivos, impessoais (científicos); e os que visam a condenar (arrazoados); e os que visam a entreter (obras literárias). Quantos discursos, artigos de jornais e folhetos de propaganda consistem em mascarar as coisas, silenciando, exagerando, ponto em lugar inexato, inventando, negando!

A retórica é a teoria da eloquência, definida esta como a arte de persuadir. Ela busca a essência da eloquência e reduz a fórmulas e preceitos o que, em um belo discurso, parece ser o instinto do gênio. Assim, a retórica procede experimentalmente. Ela se formou a partir das obras-primas da oratória, assim como a poética se fez a partir das epopeias e das tragédias. Ela está entre a gramática e a lógica e deve unir-se naturalmente à documentação.

A retórica pode ser concebida em grande parte como uma ciência racional em via de constante desenvolvimento e aperfeiçoamento. Pois as obras-primas ou exemplos a partir dos quais ela foi deduzida provêm de uma série de operações lógicas e naturais da mente humano. A retórica pesquisa essa sequência de operações, analisa-a, reconhece seu valor e a traduz em uma fórmula.

Todas as obras da mente são realizadas por meio de três operações: 1º a pesquisa de ideias (também chamada invenção); 2º a ordem na qual elas devem ocorrer (também chamada disposição); 3º a expressão (também chamada elocução). Embora diferentes, essas três operações dependem, contudo, estreitamente, uma da outra. “Com efeito, se a mente reuniu com cuidado e escolheu com discernimento todos os elementos que devem entrar no corpo da obra; se ela determinou, por um exame aprofundado, sua importância relativa e suas relações de geração, esses elementos se unirão em virtude de suas afinidades reais e encontrarão seu encadeamento natural; e ademais, por uma consequência rigorosa, a inteligência, senhora dos materiais da obra que meditou, segura da ordem em que devem se dispor, irá produzi-los com uma expressão poderosa que refletirá suas clarezas interiores e a animará com seu calor.”

Elementos científicos ou literários do livro: os dados da exposição.

O continente. Os elementos considerados anteriormente são os do ‘continente’ ou ‘forma’ no sentido amplo da palavra (elementos materiais, gráficos, linguísticos e intelectuais). Os elementos considerados aqui são os do ‘conteúdo’ ou ‘fundo’. Estes são os elementos científicos ou literários, os próprios dados, da exposição: fatos e ideias.

Por trás do livro ‘continente’ existe o ‘conteúdo’, a literatura em sentido amplo, (as letras, a ‘coisa literária’: res litteraria, materia bibliologica, res scripta, a enciclopédia imaterial do conhecimento).

Na verdade, a matéria dos livros é tudo o que é constatado e pensado, sentido e provado, desejado e proposto. A divisão da matéria como científica, literária, prática ou de ação social é relativamente recente. Houve uma primeira confusão e mistura, depois uma lenta diferenciação. Essa matéria não tem outro limite senão o pensamento humano, o qual, em princípio, não possui outros limites, exceto a realidade universal.

As tradições orais acabaram por ser escritas como os costumes eram redigidos; as canções populares transcritas, as paisagens, os locais, as indústrias, as coisas fotografadas ou filmadas.

Em termos gerais, os livros produzidos podem ser divididos nas seguintes categorias: obras antigas, que valem por si mesmas ou como fontes da história; obras literárias; obras científicas; obras técnicas e profissionais; publicações administrativas oficiais; publicações comerciais.

Conteúdo da massa de livros. A que estão consagrados esses milhões de obras, essas centenas de milhões de documentos escritos todos os dias, de vida mais ou menos durável ou efêmera e cujo efeito, nem que tenha sido por um átimo e sobre um ponto particular, veio inscrever-se na realidade universal? Todo o esforço da inteligência resulta em pensamentos, ligações, combinações, ciclos de pensamentos, que constituem sistemas, teorias, verdades, erros e opiniões. Resulta, em uma palavra, em ideologias que tendem, por síntese e eliminação, a uma mentalidade universal e humana.

Para estar atento ao que contém a massa dos livros, é necessário: 1° deles fazer uma estatística ordenada; 2° considerar as causas gerais dessa produção; 3° acompanhar as grandes correntes do pensamento através dos tempos. Precisamos de uma história da ciência, dos conhecimentos, que indique todas as inovações, todas as ideias ditas revolucionárias que foram o ponto de partida do florescimento de novas obras. Pois uma ideia se expressa por uma plêiade de homens em uma corrente de livros; ex. o Renascimento, a crítica religiosa, as grandes correntes modernas. Cada movimento criou um livro-protótipo: esse livro, uma vez criado, desenvolveu-se, foi reeditado, continuou de edição em edição. Ex.: os livros sagrados, as obras dos grandes filósofos, os dicionários de línguas, enciclopédias, coletâneas de inscrições, etc.

O que há na totalidade dos livros? Que espetáculo teríamos se, por um milagre bibliográfico, de repente tivéssemos a oportunidade de ler ao mesmo tempo todas suas partes, todas suas páginas? A primeira coisa que nos chocaria seria a repetição; em seguida, a superação de inúmeras asserções que desde então perderam valor; e ainda a futilidade e a pequenez extremas

da variedade de questões tratadas; e, finalmente, a forma inadequada e ineficaz como é apresentada a maioria das narrativas. Logo, porém, nos chocaria a grandiosidade da obra realizada, a ligação e o encadeamento que nos oferece a matéria tratada por toda essa sucessão de livros.

O pensamento bibliológico universal. A matéria dos livros, em sentido amplo, é chamada matéria literária. Na verdade, a matéria dos livros é tudo o que é constatado e pensado, sentido e provado, desejado e proposto. A divisão da matéria como científica, literária, prática ou de ação social é relativamente recente. Houve uma primeira confusão e mistura, depois uma lenta diferenciação. Essa matéria não tem outro limite senão o pensamento humano, o qual, em princípio, não possui outros limites exceto a realidade universal.

Existe realmente apenas um único pensamento. Esse pensamento circula pela sociedade humana (todas as gerações e todos os países) através de um intercâmbio perpétuo. Ele se fixa parcial e momentaneamente nos livros. A analogia aqui é real com as forças físicas que, na realidade, se reduzem a uma única, a que circula por meio de uma troca perpétua na natureza morta, bem como na natureza animada, e se incorpora nos diversos corpos.

A porção do pensamento humano incorporada nos livros constitui a matéria bibliológica em geral. Tem a característica adicional de ser: 1° pensada; 2° expressa; 3° escrita; 4° corresponder mais ou menos adequadamente à realidade exterior.

É uma longa evolução que levou ao ponto atual. Como se conseguiu tornar toda a matéria do pensamento em uma matéria bibliológica, realizar a concentração dos conhecimentos em ciências bem sistematizadas, a se conscientizar dos problemas e expô-los claramente, e criar métodos para resolvê-los. Essa evolução passa do homogêneo para o heterogêneo (expressão de Spencer), do que é semelhante e confuso no início para o que se diversifica, se ramifica e se especializa progressivamente.

Erudição. a) Diz-se ‘dominar a literatura’ ao falar de quem leu muitos livros, especialmente os melhores, e conservou na memória as impressões que essa leitura produziu em seu espírito. b) A erudição também supõe que foram lidos os comentários feitos sobre os livros, foram comparadas as várias edições, estudado a época em que viveram os autores, as fontes a que recorreram, etc. O termo erudição (Gelehrte Bildung, Gelehrsamkeit) tem se limitado pelo uso ao conhecimento literário de todos os gêneros. Inclui, além da história da literatura e do conhecimento das línguas e dos livros, a história dos povos, antigos e modernos, arqueologia, numismática, cronologia, geografia, a parte histórica de todas as ciências. c) O saber e a ciência indicam mais o conhecimento das coisas do que os dos livros; mas o saber é geralmente absoluto em sua significação; a ciência é mais precisa e requer estudos mais profundos.

O desenvolvimento da erudição. Os progressos sucessivos da erudição revestem-se de grande interesse. “Todos os trabalhos isolados, empreendidos durante séculos por eruditos que não previam qual seria seu destino final, vêm reunir-se como riachos que desaguam em um rio e contribuem para um objetivo comum digno dos maiores esforços.” Eles revelam por qual sequência de esforços a erudição conseguiu adquirir tanta importância.

a) Aristóteles era um observador e um pensador; deixou uma obra de vasta erudição e a colocou a serviço da ciência. Seus discípulos, exceto Teofrasto, negligenciaram a ciência, perderam-se nos detalhes ou limitaram-se ao papel de críticos.

b) Entre os romanos, encontramos também muitos comentadores e escoliastas, entre os quais três estudiosos notáveis: Varrão (Antiguidades das coisas humanas e divinas); Plínio, o Velho (História natural) e Aulo Gélio (Noites áticas). Varrão escreveu por volta de 80 obras que no seu conjunto formam mais de 580 livros. Aulo Gélio oferece o primeiro modelo da erudição literária, da ciência dos textos, das aproximações engenhosas.

c) Após a queda do Império Romano, as letras retiraram-se para o Oriente. O espírito criativo desapareceu. Ficou uma erudição medíocre, estreita, sem força, na medida dos espíritos bizantinos, para quem discussões pueris ocupavam a vida intelectual. No entanto, a Biblioteca, escrita no século IX pelo patriarca Fócio, permanece um modelo. É a análise de 280 obras de poesia, retórica, teologia, filosofia e linguística: extratos e comentários. A coletânea de Avicena (século XI), ao mesmo tempo lexical, enciclopédica e biográfica, é uma compilação sem método.

d) A erudição moderna nasceu no Ocidente pouco antes da tomada de Constantinopla pelos turcos, que levou à emigração para a Itália de eruditos e homens de letras. Nomes como Crisoloras, Bessarion, Teodoro Gaza, Láscaris, Jorge de Trebizonda, Filelfo, Poggio, Angelo Poliziano.

e) Em seguida, aconteceu a descoberta e o progresso da imprensa. O trabalho dos eruditos consistia em encontrar, publicar e restaurar os fragmentos das letras e das ciências antigas arruinadas, em tantos lugares, pela ignorância das mentes. Muitos desses homens foram impressores pioneiros, como Aldo Manuzio. Os vastos e preciosos léxicos intitulados: Trésor de la langue latine e Trésor de la langue grecque. Erasmo, Scaliger, Casaubon, Guillaume Budé, criador da biblioteca de Fontainebleau, berço da Bibliothèque Nationale, e também criador das cátedras livres de latim, grego e hebraico, que deram origem ao Collège de France). — Justus Lip sius, Montaigne, Rabelais.

f) No século XVII, o emprego de fórmulas de linguagem e citações, aparato pedante que só desapareceu gradualmente (Molière cria o personagem Vadius, cujo original era Ménage). A verdadeira erudição expande seu território: André Duchesne cria a história da França; os irmãos [Scévole e Louis] de Sainte-Marthe lançam as bases da Gallia christiana continuada por Haureau. Philippe Labbe publica a Collection des conciles, Baluze, os capitulares dos reis da França, o padre Ménétrier funda a ciência heráldica, os agostinianos, com o padre Anselmo, estudam as genealogias dos reis da França. Os bolandistas comentam as Acta sanctorum. Os beneditinos preparam grandes trabalhos históricos e literários, com Jean Mabillon e seu De re diplomatica que distingue os verdadeiros dos falsos documentos.

Richard Simon faz uma primeira exegese do Antigo Testamento. Edição de Nouveaux instruments utiles aux linguistes, aux littérateurs, aux historiens, de Elzevir, ad usum Delphini, a coleção de Variorum; a Byzantine do Louvre, a Bibliothèque des Pères, as Bíblias poliglotas. Du Cange publica seus glossários de latim e grego da Idade Média, Heinsius escreve sobre os poetas latinos, Vossius sobre os historiadores da Antiguidade, Graevius publica seu Thesaurus antiquitatum romanarum e Gronovius o das antiguidades gregas.

g) No final do século XVII, começam a ser publicadas, em formato de dicionários, obras para popularizar algumas partes da erudição: o Grand dictionnaire, de Moréri (1674), le Dictionnaire historique et critique, de Bayle (1695), continuado por Chauffepié e Prosper Marchand. Montfaucon ensina paleografia grega. Em L’Antiquité expliquée ele apresenta um resumo completo dos conhecimentos até então adquiridos em arqueologia grega, latina, judaica, gaulesa. Dom Rivet, ajudado por seus confrades da congregação de são Mauro, produz a Histoire littéraire de la France. Na França, a Académie des Inscriptions abre-se para os eruditos. Fabricius, Burmann, Brunck, Ernesti, Heyne, Reiske, Wolf, Schneider, Muratori, etc. enriquecem o cabedal da erudição com incessantes pesquisas e publicações cada vez mais impecáveis.

h) No século XIX, os trabalhos continuam sob o impulso da força adquirida e o gênio de homens que tinham visão de conjunto. Os progressos alcançados pela Alemanha, França, Inglaterra e Itália em filologia, em exegese, em história. Publicação do Magasin Encyclopédique, de Millin. Os hieróglifos são decifrados por Champollion, progresso no conhecimento das línguas e literaturas orientais (Silvestre de Sacy, Chezy, Abel de Remusat, E. Quatremère, Eugène Bournouf, etc.).

A erudição se utiliza de signos gráficos, gramáticas e traduções de obras literárias, filosóficas ou sacras, propícios para a compreensão do espírito das civilizações distantes no tempo. O estudo histórico e arqueológico prossegue. As principais coleções de autores gregos e latinos da Idade Média são reeditadas; os documentos e trabalhos sobre a história multiplicam-se. A crítica se organiza sobre bases cada vez mais rigorosas e faz uma revisão em todas as áreas. Apoiada por descobertas arqueológicas, principalmente pelas escavações, ela contribui com uma base sólida para a história que a aproxima das ciências exatas. Os trabalhos de linguística levam à filologia comparada.

 

As crenças e as religiões são submetidas a uma análise rigorosa.

Extensão da Materia bibliologica.

a) A matéria literária continua a se ampliar. O exotismo está em todas as literaturas nacionais. Chega-se agora às literaturas indígenas. Depois da arte negra, a vez da literatura negra. Há alguns anos o Instituto Internacional de Línguas e Civilizações Africanas organizou entre os africanos de todas as raças concursos de literatura em sua própria língua. Composições foram traduzidas (André Demaison: Diaeli, le livre de la sagesse noire, orné de nègreries par Pierre Courtois. Paris, Edition d´Art H. Piazza). Há também muita bacharelice, muito falatório, conversa fiada.

b) Na arte, na crítica, na literatura, na poesia ou na psicologia não há, nem deve haver nenhum assunto reservado. Nenhuma área deve permanecer inexplorada às investigações da mente e da criação humana.

c) Os assuntos tratados ou que podem ser tratados são infinitos, como os elementos que compõem o mundo e as relações entre esses elementos. Dois exemplos nos farão entender. Para estudar a respectiva situação comparada de 60 países, analisada em oito relatórios diferentes com intervalo de dez anos, durante o último século, será necessário lidar com (60 × 60 — 60) × (8 × 8 — 8) × 10 = 17 912 200 dados. Os 60 mil assuntos previstos na Classificação Decimal, considerados em suas relações recíprocas, nos três mil lugares mencionados e em 10 diferentes períodos de tempo, darão mais de 10 quintilhões de possibilidades.

 

Livros feitos, livros a fazer. Um livro representa um conjunto de ideias e de fatos colocados em certa ordem. Por meio da classificação e da bibliografia poderíamos traçar um mapa muito interessante de livros feitos e livros ainda a serem escritos ou livros possíveis. Em tais línguas há tais livros, em outras não (livros possíveis). De igual modo, em tal ciência estudamos tal questão, em tal época, ou em tal país ou sob tal aspecto. Falta um estudo integral de todos os países, épocas ou aspectos; isso não é feito em nenhuma ciência.

Conteúdo de um livro. Um livro que expõe uma tese contém muitos conceitos interessantes e muitas vezes pouco conhecidos, alheios ao assunto em si, mas usados para fundamentar uma demonstração. Um livro assim é uma contribuição para o assunto de que trata; uma contribuição também para outros assuntos.

OTLET, Paul. Tratado de Documentação: o livro sobre o livro: teoria e prática. Brasília: Briquet de Lemos, 2018. p. 64-164.