O livro projetado

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Fig 1. Projeção na mesa de trabalho. – Fig. 2. Filme encaixado em moldura; redução 2/3. – Fig. 3. Série de molduras (diapositivos).– Fig. 4. Lâmpada e disco com os diapositivos. – Fig. 5. Projeção à luz do dia em uma caixa de sombra. – Fig. 6. Ampliação da fotografia feita com negativo de um artigo de revista. – Fig. 8. Lupa para visão ampliada de filme.

(OTLET, 2008, p. 317)

No dia em que alguém projetou uma fotografia, exumando a velha lanterna mágica, certamente ignorava o extraordinário caminho que nos levaria a percorrer. Ele nos apresentava dois novos princípios: de um lado, a superfície era ocupada somente durante segundos de utilização, sendo liberada para outros fins imediatamente após seu uso; e, por outro lado, a possibilidade de poder ampliar ou reduzir o objeto à vontade. Eis em que consiste a projeção.

A evolução da projeção foi marcada pelas seguintes etapas: 1º começou com a velha lanterna mágica; 2º depois assumiu a forma dos diapositivos de vidro; 3º depois, fotótipos, celuloides e mesmo papéis; 4º o movimento a favor do livro microfótico (fotoscópio, cinescópio) deu origem às imagens em películas, em formato de filme, primeiro em bobina, depois separáveis em imagens independentes; 5º desenvolvimento da projeção atual.

A projeção é a reprodução e a ampliação à distância de um objeto ou imagem. Ela é de três espécies: 1º projeção de diapositivos (vidro ou celofane); 2º projeção de corpos opacos (epidiascópio); 3º projeção com raios X. Ela é realizada tanto de longe como de perto com ou sem fios. A reprodução ocorre tanto em telas, quanto em papel fotográfico, onde se fixa a imagem. A projeção ampliada sobre tela dá origem a um documento virtual que logo desaparece, sem ocupar ou imobilizar outro suporte, ocupando o espaço somente em seu momento útil e desaparecendo para dar lugar a outra projeção.

Uma classificação geral da projeção possui as seguintes divisões: a) fixa ou animada; b) em preto e branco ou colorida; c) de objetos translúcidos ou opacos (diascópica ou episcópica); d) de grandes dimensões ou microscópica; e) sem relevo ou com relevo; f) sobre tela ou em panorama; g) sem fala nem música, com fala e música; h) com fio ou sem fio; i) no escuro ou em plena luz. Os diversos aparelhos e processos existentes inserem-se nas seguintes categorias: lanterna mágica, cinema, fotoscópio, cinescópio, filmes falados, filmes sonoros.

 

O livro microscópico ou microfotográfico. O livro projetado

 

Propusemos, desde 1906, junto com Robert Goldschmidt, dar ao livro ou aos documentos em geral uma nova forma: a do volumen em miniatura, que seriam assim produzido: fotografa-se cada página, elemento ou combinação de páginas diretamente em uma película ou filme em formato cinematográfico universal. As imagens assim obtidas apresentam-se sequencialmente, justapostas lado a lado no filme, nas dimensões reduzidas de 18 × 24 mm. Essa imagem virtual reproduz nos mínimos detalhes o texto, manuscrito ou impresso, bem como as ilustrações.

Esse negativo serve de matriz ou protótipo a partir do qual serão impressos os positivos nas mesmas dimensões. A leitura dos positivos poderá ser feita tanto com a ajuda de lentes de ampliação, quanto com uma simples lâmpada de projeção, ou ‘aparelho de leitura’, especialmente construída e de tamanho tão reduzido que pode ser levada no bolso.

O novo método permite filmar, em 200 segundos, 100 páginas do original de um livro. Em uma hora, muitos milhares de páginas podem ser registrados por um só aparelho, a um preço módico. Bobinando cada livro separadamente em sua caixa, um móvel (microfototeca), com dez gavetas, de um metro de superfície e 12 cm de altura, pode conter 18 750 volumes microfotografados de 350 páginas. Equivale a uma biblioteca cujas prateleiras teriam 468 metros de uma extremidade a outra. As cópias positivas são obtidas por contato. Máquinas apropriadas para essa operação permitem copiar até mil metros por hora, ou seja, 52 mil páginas.

No que concerne à leitura, o ‘aparelho de leitura’ reproduz em tamanho real o texto ou o documento gráfico. O aparelho tem um volume de cerca de 30 cm cúbicos e funciona com uma lâmpada elétrica alimentada por qualquer corrente ou por uma pilha. O aparelho, colocado sobre uma mesa, permite que a imagem do documento seja projetada verticalmente, de cima para baixo, sobre uma superfície opaca branca, e também por transparência, mudando-se o aparelho de posição de modo que a projeção seja feita de baixo para cima. Nesse caso, substitui-se a superfície branca por um suporte transparente de vidro fosco ou papel vegetal. Quando o aparelho está na horizontal, é possível projetar sobre qualquer superfície, inclusive transparente, como uma tela, parede e até mesmo o teto. Assim é possível a um grande número de pessoas assistir à projeção ao mesmo tempo (conferências, escolas, demonstrações científicas, etc). Se for preciso preservar a ampliação do documento, bastará substituir a tela por uma folha de papel sensível ao brometo de prata que se obterá, depois da revelação, uma reprodução na escala desejada, conforme a acuidade visual do leitor. Se a intenção for reproduzir o documento inteiro em poucos exemplares, um aparelho especial permite a cópia contínua em papel sensível da imagem ampliada do filme. Se, ao contrário, se quiser reproduzir a ampliação em muitos exemplares, um processo contínuo de impressão, que emprega tinta tipográfica, permite obter rapidamente a quantidade de cópias desejada.

Projeção à luz do dia. Imagens e textos podem ser vistos a olho nu e lidos com lupa. Uma cópia em papel serve de catálogo que pode funcionar como lembrete, principalmente no caso de aulas ou conferências. A partir do modelo básico foram desenvolvidas diferentes aplicações e aparelhos (fotoscópio, cinescópio, Zeiss, etc.).

Bibliotecas, institutos, museus, grandes repartições, gabinetes de estudos industriais, escolas, etc. podem ter atualmente seu microfoto e começar sua coleção da enciclopédia: adquirindo ou produzindo seus próprios filmes. No futuro, todo trabalhador intelectual terá sobre a mesa esse instrumento novo que ampliará os recursos de sua documentação, propiciando-lhe, em um formato maravilhosamente reduzido, um museu e uma biblioteca.

O formato do microfoto é de 18 × 24 mm (imagem de cinema) ou de 24 mm de largura por 23 mm de altura, o que permite a inserção, em largura e altura, de qualquer documento, sem ser preciso rebobinar o filme. Para uma boa paginação, deve-se levar em conta que as imagens necessitam ser enquadradas em uma moldura de 24 × 33 mm ou múltiplos dessas dimensões. Os documentos em preto e branco e em escala de cinza são os únicos que podem ser fotografados sem receio, pois os coloridos geralmente tornam-se tons cinzentos ou pretos. Os textos a serem incluídos nas imagens devem ser escritos com tinta nanquim sobre fundo branco ou datilografados com uma fita bem escura. Não colocar texto em excesso nas imagens e cuidar para que o tamanho dos caracteres seja proporcional ao das imagens. É conveniente colocar sobre a imagem uma marca de coleção, um número de referência, um índice de classificação e um título. As imagens são montadas em fitas enroladas em bobinas. Um microfilme bobinado pode ter de 20 a 60 imagens, mas não há limite de comprimento. Elas são também utilizáveis, separadamente, montadas em pequenas molduras metálicas e móveis, podendo então ser ordenadas de diferentes formas. Existem câmeras fotográficas pequenas (Photoscopic, Cent Vues, etc.).

A projeção de microfilmes pode ser feita automaticamente (autofilm). Ela é contínua, em ciclos que recomeçam, sem exigir, portanto, qualquer intervenção humana, a não ser o acionamento inicial. O aparelho tem lâmpada, filme, mecanismo de rotação, tela e tomada elétrica.

É possível fazer projeções à luz do dia com um anteparo preto diante da tela. O aparelho é colocado em um local público (galerias de arte ou museus, vitrines, esquinas ou parques). A projeção é feita para os transeuntes. É uma espécie de publicidade mural aplicável à difusão de todo tipo de informação. São fabricadas lâmpadas de leitura para serem colocadas sobre o documento (Busch, Berlim). Existem óculos especiais (ampliador binocular Zeiss).

 

Projeções de diapositivos

Os diapositivos em vidro eram os únicos durante muito tempo. São pesados, frágeis e caros. O congresso internacional de fotografia unificou seu formato. Foram formadas coleções em centros de estudos.

 

Projeção de corpos opacos

A projeção de corpos opacos baseia-se no princípio da reflexão da luz e exige uma fonte de luz intensa. Corresponde ao desenvolvimento da antiga ideia das ‘sombras chinesas’ muito difundidas no Extremo Oriente. Existem numerosos instrumentos: o episcópio da Zeiss, o episcópio de Bergé, o Panoptique, o Mirrorscope.

Radiografia

Os raios X e os aparelhos que os produzem nos oferecem atualmente um poderoso meio de investigação, que enxerga sem causar danos, que penetra, sem prejudicá-los, nos objetos mais preciosos, e que as ciências da antropologia, paleontologia e pré-história devem aplicar e acrescentar aos seus métodos usuais de pesquisa (ex., múmias, sílex, etc.). É possível fazer uso da chapa de vidro e das cópias fotográficas positivas em papel.

A fotografia, e mesmo a cinematografia, com dezesseis vistas por segundo, utilizaram a ação sensível dos raios X. Em anfiteatros de medicina são projetados filmes que demonstram o movimento de um esqueleto, o funcionamento dos músculos ou a contração do estômago durante a digestão. A radiografia mostra apenas sombras, a ampola de raios X não ilumina, ela apenas pinta sombras chinesas na parede.

Os raios X são instrumentos para o exame de pacientes e o diagnóstico de doenças, e também podem ter ação terapêutica. Os raios X deram origem a novas formas de documentação: os fotogramas, imagens produzidas pelo maravilhoso instrumento. A nitidez das imagens dispensa longos raciocínios, como era comum antigamente. A cirurgia de fraturas tornou-se praticamente banal. As imagens dos pulmões, estômago, piloro, rins, bexiga e de qualquer outro órgão que possa apresentar anormalidade são analisadas. Antes do século XIX, antes de Laennec, o tronco humano era como um território desconhecido. A arte da percussão e da auscultação foi objeto de sarcasmo durante muitos anos; hoje basta apenas enxergar. Os raios X podem ser aplicados em massa. Na Suíça, todos os recrutas são submetidos a exames radiológicos, visando ao diagnóstico da tuberculose em seus estágios iniciais e, portanto, passível de tratamento.

 

Projeções diversas

O dr. Manfred, de Manheim, construiu uma máquina para fazer projeções nas nuvens, a uma altura de 800 a mil metros, e visíveis a muitos quilômetros de distância. Cria-se um céu lúdico que, durante a noite, torna-se uma folha de papel, onde qualquer pensamento pode ser inscrito, e também uma tela onde é possível projetar uma fotografia ou um mapa.

 

 

Corpus esquematológico

OTLET, Paul. Tratado de Documentação: o livro sobre o livro: teoria e prática. Brasília: Briquet de Lemos, 2018. p. 317-321.